
Fonte: Mapa em 3D demarcando o Jardim Botânico Fonte: Google Earth.
Jardim Botânico do Rio de Janeiro: De Mineração a Símbolo de Preservação
Texto: Débora Toci e Luana Oliveira
O Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) é um dos principais espaços verdes da cidade e um patrimônio histórico e ambiental do Brasil. Fundado em 13 de junho de 1808 por Dom João VI, foi concebido inicialmente para aclimatar espécies de plantas trazidas de diversas partes do mundo, especialmente especiarias oriundas do Oriente. Com o tempo, tornou-se um dos mais importantes centros de pesquisa e conservação da biodiversidade no país.

Fonte: Portão da antiga Fábrica de Pólvora. Jardim Botânico. Georges Wambach. Acervo da Fundação da Biblioteca Nacional.
Curiosamente, parte da área onde hoje se encontra o Jardim Botânico possui um passado ligado à mineração. A Casa dos Pilões, antiga Real Fábrica de Pólvora, remonta ao período colonial, quando a região era utilizada para a produção de pólvora, material essencial para a defesa militar. A fábrica foi criada por decreto de Dom João VI em 13 de maio de 1808, um mês antes da fundação oficial do Jardim Botânico, e funcionou até 1831.
Localizada estrategicamente às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, a fábrica utilizava a abundância de água e o isolamento natural da região para minimizar riscos à população. Entre 1808 e 1831, a unidade explorou recursos naturais, como madeira para a produção de carvão, e aproveitou a força hidráulica para movimentar os engenhos de moagem. A Casa dos Pilões, onde a pólvora era comprimida em pilões movidos por uma roda d'água, permanece preservada e hoje integra o Jardim Botânico como um museu e sítio arqueológico.

Casa dos Pilões
A Fábrica de Pólvora ajudou a fortalecer a infraestrutura e a segurança do Brasil em um período crucial da história, reduzindo a dependência de importação e introduzindo técnicas avançadas de produção. Apesar dos impactos ambientais decorrentes dessas operações, a desativação da fábrica permitiu a transformação da área em um espaço dedicado à pesquisa científica, educação ambiental e preservação da biodiversidade.
Atualmente, o Jardim Botânico abriga uma vasta coleção de espécies vegetais, tanto nativas quanto exóticas. Entre os destaques estão as icônicas palmeiras-imperiais e espécies raras da Mata Atlântica, muitas delas ameaçadas de extinção. O espaço também conta com lagos, jardins temáticos e estruturas históricas, como o Cactário e o Orquidário, enriquecendo a experiência dos visitantes.
Em 2023, o Jardim Botânico recebeu 543.672 visitantes, consolidando-se como um dos principais pontos turísticos do Rio de Janeiro. Com uma área total de 137 hectares, divide-se entre o setor do Jardim, com 54 hectares de terreno plano, e o Horto Florestal, que se estende pelas encostas do Parque Nacional da Tijuca, alcançando altitudes de até 400 metros. O espaço abriga 24.770 plantas em coleções vivas e 3.502 espécies cultivadas, reforçando sua relevância científica e ambiental.
Visitar o Jardim Botânico é uma oportunidade de compreender as transformações históricas da região, desde sua função como área de produção militar até sua consagração como um dos maiores patrimônios naturais e culturais do Brasil. O legado da Casa dos Pilões e da antiga Real Fábrica de Pólvora testemunha a capacidade de reconversão de territórios em benefício da sociedade e do meio ambiente.
Hoje, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro é um símbolo de preservação e um exemplo de como áreas mineradas podem ser transformadas em espaços dedicados ao meio ambiente, à ciência e à cultura. Mais do que um ponto turístico, ele desempenha um papel fundamental na educação ambiental e no estudo da rica flora brasileira.

Telhado e madeiramento da casa revelam os métodos e sistemas construtivos da arquitetura e engenharia do período colonial.

A madeira está presente não somente no madeiramento do telhado, mas também em vergas de paredes e contraventamentos desta edificação feita em tíjolos, típica da arquitetura e engenharia que vem do período colonial.

Mapa em 3D demarcando (em uma linha amarela) a distância entre os respectivos constituintes que compunham a área do engenho. Fonte: Google Earth.